É preciso estar viva

Pensamentos demais. Carências demais. Cobranças demais. Inércia demais. Insegurança demais. Preocupações demais. Tudo isso batido no liquidificador do tempo.

A voz interna grita por mudanças. Recomenda enfrentar as coisas. Recomenda que demonstre mais os sentimentos. Recomenda uma revisão de valores, novas convicções. Recomenda que trilhe um caminho sozinha. Um única resposta soluciona todas as questões.

É preciso parar de pensar um pouco. É preciso concentrar energia. É preciso fazer uma faxina interna. É preciso ser precisa. A objetividade nunca foi tão lógica neste momento.

Vivo
Composição: Lenine/Carlos Rennó

Precário, provisório, perecível;
Falível, transitório, transitivo;
Efêmero, fugaz e passageiro
Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo!

Impuro, imperfeito, impermanente;
Incerto, incompleto, inconstante;
Instável, variável, defectivo
Eis aqui um vivo, eis aqui...

E apesar...
Do tráfico, do tráfego equívoco;
Do tóxico, do trânsito nocivo;
Da droga, do indigesto digestivo;
Do câncer vil, do servo e do servil;
Da mente o mal doente coletivo;
Do sangue o mal do soro positivo;
E apesar dessas e outras...
O vivo afirma firme afirmativo
O que mais vale a pena é estar vivo!

É estar vivo
Vivo
É estar vivo

Não feito, não perfeito, não completo;
Não satisfeito nunca, não contente;
Não acabado, não definitivo
Eis aqui um vivo, eis-me aqui

Dez anos sem Renato Russo (11/10/2006)

Love In The Afternoon

É tão estranho, os bons morrem jovens
Assim parece ser quando me lembro de você
Que acabou indo embora cedo demais

Quando eu lhe dizia: - me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada
Você sorriu e disse: - eu gosto de você também
Só que você foi embora cedo demais
Eu continuo aqui com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto eu não sei dizer

- Vai com os anjos, vai em paz
Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade
Até a próxima vez, é tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você e de tanta gente
Que se foi cedo demais

E cedo demais eu aprendi a ter tudo que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto eu não sei dizer

Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre, mas eu sei
Que você está bem agora

Só que este ano o verão acabou
Cedo demais.

Eleições 2006 - Votar em quem?

Em 2006, nem Joseph Climber me deixou motivada para manter meu orgulho de ir às urnas votar em quem acredito. Particularmente, ainda nem sei direito os números que terei de apertar na urna para deputado federal e para estadual. Também cansei de ouvir falar em mensalão: eu quero é solução.

Como acredito que votar em branco ou nulo ainda não é o melhor, sigo o pensamento da maioria da população, ou seja, dar apoio ao que acredita-se ser o menos ruim. E olha que candidatos ao pleito não faltam: só para governador na Bahia, temos oito. Mas as bizarrices continuam, principalmente para os demais cargos. Quem é o melhor? Não, a pergunta é: quem você tolera mais?

Pra não esquecer na hora em que estiver cara a cara com a urna, segue a canção eternizada por Bezerra da Silva:

Candidato Caô Caô
Walter Meninão E Pedro Butina

Ele subiu o morro sem gravata
dizendo que gostava da raça, foi lá
na tendinha, bebeu cachaça e até
bagulho fumou

Foi no meu barracão, e lá
usou lata de goiabada como prato
eu logo percebi é mais um candidato

Às próximas eleições
Às próximas eleições
Às próximas eleições

Fez questão de beber água da chuva
foi lá na macumba e pediu ajuda
bateu a cabeça no gongá
"deu azar"...
A entidade que estava incorporada disse:
- Esse político é safado cuidado na hora de votar !
também disse ...

- Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer
hoje ele pede seu voto, amanhã manda a polícia lhe bater ...
- Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer
hoje ele pede seu voto, amanhã manda a polícia lhe prender ...

hoje ele pede seu voto, amanhã manda a policia lhe bater ...
eu falei prá você, "viu"?

Nesse país que se divide
em quem tem e quem não tem,
sempre o sacrifício cai no braço operário
Eu olho para um lado
Eu olho para o outro
Vejo desemprego
Vejo quem manda no jogo

E você vem, vem
Pede mais de mim
Diz que tudo mudou
E agora vai ter fim,
Mas eu sei quem você é
E ainda confio em mim
Esse jogo é muito sujo
Mas eu não desisto assim

Você me deve
Você me deve
Hoje ele pede, pede, pede de você
Amanhã ele vai, vai, vai te bater
Hoje, pede, pede, pede de você
Amanhã ó!

Quem é o vencedor?

Sinto-me cansada. O excesso de informações e tarefas bagunçaram as horas e o meu raciocínio. Hoje, não consigo ter minhas poucas horas de lazer sem pensar no trabalho e vice-versa. O tempo passa cada vez mais rápido e não consigo mais correr junto a ele - pelo contrário, ele voltou-se contra mim. Vejo meus sobrinhos como se tivessem crescido 10 cm por semana. As coisas que fiz há dois anos surgem à minha mente como se tivessem sido feitas ontem. A sensação é de correr em uma auto-estrada a 200km/h e quase não dá pra ver as placas e os avisos nas laterais da pista.

Corre-se hoje para ser o melhor na profissão. Eficiência, eficácia, resultados, publicações. Não se admite derrotas. O aprendiz cai no mercado de trabalho e sofre as mesmas exigências de um profissional. Por sua vez, o profissional tem que buscar mais e mais capacitação para não ser derrubado pelo aprendiz. Até nos relacionamentos familiares, pessoais e amorosos, recorre-se ao uso de estratégias e consultorias para se relacionar bem com os filhos ou conquistar a pessoa desejada. Mas, se o fim de todos (pelo menos nesta dimensão) é a morte, não entendo o porquê de corrermos tanto e o que ganhamos ao final de tudo. Antes de entrar em crise, respiro fundo, fecho os olhos e mergulho na seguinte canção:

O Vencedor

(Marcelo Camelo)

Olha lá quem vem do lado oposto
e vem sem gosto de viver
Olha lá os que os bravos são escravos
sãos e salvos de sofrer
Olha lá quem acha que perder
é ser menor na vida
Olha lá quem sempre quer vitória
e perde a glória de chorar
Eu que já não quero mais ser um vencedor,
levo a vida devagar pra não faltar amor

Olha você e diz que não
vive a esconder o coração

Não faz isso, amigo
Já se sabe que você
só procura abrigo
mas não deixa ninguém ver
Por que será ?

Eu que já não sou assim
muito de ganhar
junto às mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
só pra viver em paz.

Paixão

A ansiedade começa cedo, ainda no abrir dos olhos. Pula da cama e segue direto ao guarda-roupa. Escolhe com cuidado as peças, confere a melhor combinação, aquela que possa refletir o seu estado de espírito. O banho revela o perfume que vai acompanhá-la durante grande parte do dia. Dentes, lingerie, blusa, saia, cabelo: cada detalhe é analisado como peças de xadrez. Enquanto se arruma, pensa com detalhes qual será a nova estratégia a ser adotada. O estômago rejeita o café - apenas uma maçã antes de ganhar a rua.

Os pensamentos só a deixaram perceber que havia chegado ao destino quando avistou o pátio. Subiu as escadas ligeiramente, entrou na sala. Enquanto ligava o computador, lançava os olhos para a paisagem diante da grande janela e via as pessoas chegarem, aos poucos. O vento que balançava os galhos das árvores provocavam a queda das últimas folhas do outono e antecipava a sensação da primavera. É, hoje vai ser um dia desafiador, presumiu.

Enquanto organizava a apresentação a ser feita naquela manhã, imaginava uma forma de encontrá-lo. Ao tentar lembrar que horas ele costumava chegar, não conseguiu chegar a um consenso. Tudo bem, pelo menos sabia em que sala ele ficava. Só de lembrar, a ansiedade aumentava: chegava mesmo a tentar advinhar como estaria vestido, o sorriso, os olhos e - ops - volta, concentração, preciso ficar com uma boa média neste semestre!

Por sorte, a tarefa foi cumprida rapidamente e a turma logo foi liberada. Pela cara do professor, parecia que a boa nota estava garantida. Mas agora não é hora de pensar nisso pois, neste momento, o foco é outro e está no andar de baixo. Esperou que todos saíssem da sala e, antes de descer, tentou escrever um bilhete. Colocou no papel, resumidamente, todos os sonhos, desejos e projetos guardados durante meses. O ideal seria entregar logo o coração, mas a realidade permitiu apenas que os sentimentos fossem expressos com letras desenhadas em papel vermelho. O bilhete se transformou em uma carta. Respirou fundo e, ao chegar à porta, dá de cara com...

-  Você...

E emudeceu. Sentia as mãos úmidas, as pernas trêmulas, o coração bater  descompassado. Diante dela, nada e ninguém junto a ele. Estavam sós.
Ao mesmo tempo, vinham à mente flashes dos momentos em que imaginava estar junto dele, sentindo o toque, a pele, os cabelos, os lábios... E, ainda paralisada, viu quando ele tomou o papel vermelho, abriu e leu cada linha que significava, no mínimo, o que ela considerava como a própria vida. E, sem dizerem uma palavra, olharam nos olhos um do outro, aproximaram-se bem devagar, entrelaçaram-se em um abraço e começavam ali uma viagem que tinha, como destino, um final feliz.
 
LU ROSE.
Quero

Eu queria não querer,

Mas eu quero.

E agora, o que fazer

Com esse querer?

Não sei, não quero pensar,

E nem queira saber o porquê,

Pois eu só quero,

E como quero,

Quanto quero,

Ter esse querer assim,

Dentro de mim.

 

LU ROSE

PAF

O lugar segue arborizado. Ao chegar, avista o portão, passa pelo estacionamento e logo vê os prédios erguidos à base de concreto. "Era o estilo da época em que foi inaugurado o campus", diziam alguns. Rapidamente, chega ao pátio e pára diante do pavilhão. Um mister de familiaridade e saudade logo assola o peito. É, estamos no velho Campus da Universidade Federal da Bahia, no bairro de Ondina.

Na época em que estudava na Faculdade de Comunicação (ou Facom), uma das minhas diversões era imaginar a rotina dos estudantes em outros cursos. Enquanto tínhamos uma grade curricular enxuta, que permitia aulas apenas pela manhã e cursar todas as disciplinas na própria faculdade (exceto a matéria eletiva, que deveria ser pega em outro curso), os alunos de outras áreas penavam com aulas em horários e locais diversos, com turmas diferentes, lógicas diferentes... E um desses locais que agregavam pessoas de vários cursos eram os dois Pavilhão de Aulas da Federação (PAF I e II).

Nunca tive aulas nos PAF, mas minhas visitas ao pavilhão eram freqüentes. O caixa eletrônico, a agência dos Correios, as revalidações de cartão de meia-passagem e as carteirinhas de estudante, a cantina, o Centro de Processamento de Dados, a passagem para os outros prédios... Enfim, volta e meia estava lá, fazendo alguma coisa ou mesmo olhando os murais para ver os tradicionais anúncios de tradução de textos, ou avisos aos estudantes que completavam quase uma década na Universidade para "comparecer à Secretaria Geral de Cursos, sob pena de ser jubilado". Não raramente, também encontrava amigos ou antigos colegas, alunos de outras áreas.

Por pouco não fui aluna assídua no PAF, caso tivesse seguido a área do Processamento de Dados/Ciência da Computação. A matemática e a física foram barreiras maiores que o meu sonho, e devolveram-me à realidade. Passei então a admirar ainda mais os alunos da área de Exatas e da Natureza - eles entendiam uma linguagem que, para mim, sempre foi um enigma. O CPD, por sua vez, fora palco dos meus tormentos em conciliar trabalhos digitados ou material enviado por e-mail com a falta de computador em casa.

Voltei ao PAF I neste domingo. Pela primeira vez, subi as escadas e entrei em uma das salas para resolver uma prova. Não, não era de qualquer disciplina da instituição, mas isso também não importava. O encontro com colegas de curso reforçou ainda mais a volta ao passado universitário. Por algumas horas, senti a sensação de ser novamente aluna daquele campus que, durante quatro anos e meio, fez parte da minha rotina e da minha formação intelectual e social. Havia mudanças, sim, e as percebia, como uma forma de lembrar que o tempo não pára. No entanto, as lembranças permanecerão ao meu lado, para sempre...

Somos Joseph Climber?

Nos últimos meses, um vídeo tem feito sucesso entre os internautas, seja difundido por inúmeros e-mails ou acessado em páginas como o You Tube. O personagem principal: Joseph Climber que, como define um dos apresentadores, “é o maior exemplo de perseverança e motivação do mundo”. A história de Joseph Climber, que em português poderia ser traduzido como José Ambicioso, é recheada de diversas tragédias pessoais e reviravoltas mirabolantes, com um humor incrível. A personagem revela-se uma Pollyana nonsense ou, como definiu perfeitamente um colega de trabalho, Climber seria o “ pós-moderno”.

 

Pois até mesmo para Climber, que de lutador mundial de boxe acaba como um bem-sucedido peso de papel, é praticamente impossível suportar tantos contratempos. De uma certa maneira, se compararmos com o nosso cotidiano, todos nós temos um pouco de Jó ou de Joseph dentro de nós. Vivemos em um mundo onde trabalhamos muito e ganhamos pouco, onde as práticas da corrupção e da Lei de Gérson ainda são largamente utilizadas para vencer na vida,  onde jogador de futebol ganha mais do que professor e as esperanças de mudança na situação política do país são cada vez mais raras. Particularmente no caso de nós, brasileiros, ainda temos força para dizer que “tudo é lindo, maravilhoso”.

 

Em pleno século XXI, ainda temos guerras, fome e doenças emergentes e re-emergentes que matam milhões de pessoas. Temos a mídia preocupada no novo namorado da estrela da vez, enquanto pessoas são mortas em qualquer lugar, sem sequer uma nota de repúdio. Vemos a natureza arrasar a Terra gradativamente, na mesma proporção que o homem destrói a natureza. Temos violência, temos subemprego, temos falsas profecias, temos subvida. 

 

Rimos das tragédias e reviravoltas de Climber como se estivéssemos rindo, em particular, de nossa própria situação. Talvez precisemos soltar o mesmo grito de indignação da personagem para o quadro atual e, assim, dar um basta a esta situação. Será isso possível? E quando acontecerá?

 

Confira o vídeo aqui

Saudades de mim

Estou com saudades de mim.
Saudades das doces lembranças da minha infância,
Em meio ao pôr-do-sol, sentada à janela, rodeada de canções
Dos meus livros tão queridos, companheiros de solidão
E das emoções em palavras que fluíam naturalmente no papel em branco.

Sinto falta dos meus sonhos, dos meus planos,
Daquilo tudo que consegui construir, em linha reta, em muros rígidos
Da minha concentração e do meu racionalismo diante da vida
Dos meus objetivos-desafios, que tanto lutara para conquistar
E do carinho límpido pelas pessoas queridas ao meu redor.

Sentir falta é o grande vazio que se instala dentro de mim
É ver murchar o peito, diluir a essência, secar os sentimentos,
Apresentar fraqueza, mostrar-se estéril, sucumbir à loucura,
Perecer aos poucos, diante do inevitável e do inacreditável
Que sentir falta é ter saudades de mim, por conta de ti.

LU ROSE.

Acabou, acabou... não foi hexa!!!!

Pelo menos em 2006, a Seleção Brasileira de Futebol não consegue o sonho de se tornar hexacampeã mundial de futebol. Culpados pela história? Todos e ninguém, a depender do ponto de vista. Já havia comentado em um post anterior sobre a narcose verde-amarela desta Copa do Mundo ultra-midiática. O certo é que o país foi alimentado por uma ilusão de que os talentos individuais resolveriam qualquer problema em campo. O resultado foi estrelismo de mais, futebol de menos. E, pela terceira vez consecutiva em Copas, sucumbimos à França.

Será que, desta vez, vamos aprender a lição? Veremos em 2010...

LigAÇÃO

Múltiplos toques, olhos na tela
Um mundo novo, ilimitado
Frio e silêncio, a demonstrar
Entre sinais, a dor, o amor,
A ansiedade, a liberdade
Duas essências que se cruzam
E se reconhecem, mesmo à distância
Bits e toques, batidas do coração
Pensamentos a divagar,
A se espalhar pelo ar
Na velocidade de um segundo
Puro, mágico, individual
Irrealidade dentro da realidade
Ameaçada por mentiras e expectativas
Dúvidas? Ou serão simples loucuras?
Quem se arrisca nesse mar surreal
De um amor virtual?

LU ROSE.

Hasta que me quieras

Puedo mirarte horas enteras,
o cerrar mis ojos e imaginarte.
Puedo hablar hasta cansarme,
o envolverme en el vacío silencio,
pensando en vos........
Puedo yo convertirme:
En el radiante sol,
e iluminar todos tus despertares,
o en la luna más hermosa,
para guiarte en tus oscuras noches.
Puedo ser un perro,
para servirte de guardián,
y lamer tus pies,
y aullar en mis noches de soledad...
Y podes hablarme de amor,
o quizá volverme la espalda.
Y podes correr y abrazarme,
o solamente alejarte sin mirar.
Más no me pidas nunca
que deje de quererte
puesto que pedirme esto
sería como pedir al pájaro que no cante
como pedirle al mar que ya no tenga sal.
Sería como cultivar una rosa
y tirarla a la basura.
Sería como mirar al cielo
e imaginarlo sin estrellas.
Pues eso es mi amor,
algo que está...que permanece,
una fuerza superior a mi voluntad,
un enigma sin jeroglíficos,
un sentimiento superior al dolor,
sin temor de la muerte.
No me pidas entonces,
que deje de quererte
Pues el quererte a vos,
es sin que vos lo sepas,
una razón de vivir,
de despertar cada día,
y volver a andar...y seguir...y seguir...
Hasta que llegue el día
en que me quieras,
y vengas a mi lado.

(Daniel Lagos)

* Homenagem da autora ao Dia dos Namorados, com agradecimentos ao amigo Dark Poet pelo envio do poema em algum dia do ano de 2002.

E as fitas cassete?

Sempre que estou em meio aos livros, artigos e rabiscos, gosto de fixar o assunto na minha mente ouvindo música. Nesse momento, meus amigos são o quarto, a cama e o microsystem, que ajuda a tocar minhas canções favoritas via FM (raramente) ou CD's.

Um dia, resolvi mudar um pouco e salvar da poeira algumas fitas cassete, que ainda conservo por guardarem em si obras e coletâneas que ainda não possuo na versão digital. Aciono o toca-fitas e, junto com as notas, vozes, versões e alguns pequenos ruídos, vem a gostosa lembrança dos tempos em que driblava o alto preço das obras originais ou apenas reunia minhas canções favoritas em um só meio.

Quando as canções estavam em LP, tentava aproveitar o máximo de tempo da fita (geralmente de 60 min), selecionava as canções, calculava os minutos e segundos para preencher o tempo exato de cada lado (30 min). Quando extraía as músicas das FM's, o negócio era esperar os especiais ou, então, estar atento à parada de sucessos para pegar a música do momento. Em ambos os casos, as teclas Play-Pause-Stop entravam em ação, ao sabor da sincronia do autor da gravação. Junto aos sons automotivos, o surgimento dos walkmans e microsystems com toca-fitas promoveram o auge do cassete.

Com o crescimento do uso dos suportes digitais, vide CD e MP3, as fitas magnéticas quase não são mais utilizadas hoje. No entanto, ainda mantém um espaço no coração e na estante dos saudosistas, guardando momentos importantes da vida nas canções registradas e curiosidades como a vinheta da rádio no meio daquela música do Djavan...

Narcose verde-amarela

O clima começa a mudar meses antes. Timidamente, surgem algumas camisas aqui, um boné acolá, um chaveirinho ou uma pulseira. Ao passar das semanas, o bicolor nacional vai ganhando mais formas, espaços e corações de um país apaixonado pela bola no gramado. Aos especialistas ou entendidos no assunto, discute-se quem será a revelação do momento máximo do futebol. Neste momento, apenas dias separam a população brasileira do início da Copa do Mundo da FIFA, realizada a cada quatro anos e que, nesta edição, realiza-se na terra dos chucrutes, salsichas e chopp.

Boa parte da população mundial deve considerar a competição apenas mais um evento esportivo. No Brasil, não. É uma questão de honra e mobilização em todo o território. Esqueçam mensalões, PCC's e um futuro quase incerto na política brasileira. Agora, "todos os corações se unem em uma corrente de fé e esperança", "vamos nessa Brasil", "o hexa já é nosso" e demais frases utilizadas como slogans de diversas promoções e/ou manchetes de noticiários de TV. O bombardeio é tamanho que poucos são aqueles que marcham contra - isso quando conseguem se revelar. Nessa época, até o ar parece estar impregnado pelo verde-amarelo. E dá-lhe bandeiras, passeatas, horários de expediente alterados e até mesmo orações em todas as instâncias religiosas. E dá-lhe Brasil!

Esta é a quinta Copa que acompanho e, em 2006, tenho perdido um pouco o encanto pelo tão sonhado título mundial em futebol. Sair um pouco dessa narcose e enxergar que todas as feridas sociais, econômicas e políticas continuam sangrando é duro, feio e triste. Não combina com clima de Copa que, "por tabela", não combina com clima de desenvolvimento que tanto desejamos. Mas a população não quer saber, tampouco o comércio, os governantes e a mídia - esta última, inclusive, tem divulgado tantas notícias importantes sobre a Seleção Brasileira que falta apenas revelar que o furo na cueca de um dos Ronaldos é um sinal de que conquistaremos o hexacampeonato... é mole? Como diria o José Simão, "É mole mas sobe". Voa, canarinho, voa...

Aos desavisados, explico que não deixarei de assistir aos jogos do Brasil, até camisa de promoção de refrigerante consegui. Torcerei como o faço todos os anos para meus times de coração e para tantas outras competições em outras modalidades esportivas nas quais o Brasil participa. Comemorarei com toda a força a cada vitória na competição e ficarei triste em caso de derrota. A minha singela crítica é apenas para essa massificação de um patriotismo de chuteiras, que começa e termina de acordo com o desempenho do time canarinho. Em vez de sermos apenas uma potência no futebol, devemos ser potência, também e integralmente, como nação. E que, da manchete "Brasil é primeiro do mundo em futebol", não esqueçamos também de conquistar uma outra manchete, bem simples: "Brasil é o primeiro do mundo".

Pequeno momento

Noite escura
Emoção pura
Olho a lua
Brilhante e nua
A encantar
Começo a cantar
Sozinha
Na minha
Uma vozinha
Ao vento
No relento
Ao sabor do momento.

LU ROSE




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